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As rápidas e acentuadas mudanças trazidas pelo século XXI têm transformado o modo como a infância é vivida nos dias de hoje. Está a desaparecer uma “cultura de brincar na rua”, afetada pelo aumento do tráfego automóvel, pela maior densidade habitacional e pelo crescente receio dos pais em deixarem as crianças brincarem sozinhas no exterior. Surge também a era dos écrans (televisões, tablets, smart phones), em que os jogos eletrónicos se tornam cada vez mais elaborados e apelativos.

Neste contexto, o brincar e a atividade motora assumem em grande parte um formato institucionalizado, circunscrito a espaços fechados e controlado pelos adultos, desvalorizando-se a importância do brincar livre, na rua ou na natureza.

A diminuição do brincar livre e a adoção de estilos de vida cada vez mais sedentários, tem afetado a liberdade das crianças para explorarem os contextos, crescerem em sintonia com o mundo natural e despenderem energia suficiente para aprenderem e se desenvolverem através de hábitos saudáveis.

Ainda, a diminuição da atividade física e da autonomia, surge associada a diferentes problemas de saúde e de comportamento. Em Portugal, segundo o estudo realizado por Rito e Breda (2010), no âmbito WHO – European Childhood Obesity Surveillance Initiative, entre os 6 e os 9 anos, regista-se uma prevalência de pré-obesidade de 17,6% e obesidade de 14, 5%, o que perfaz um total de 32,1% de crianças com excesso de peso. Por sua vez, investigações realizadas no âmbito da qualidade do ar nos contextos educativos apontam para a existência de reduzidos ou inadequados meios de ventilação nas salas de atividades, verificando-se, consequentemente, um número significativo de contaminantes acima dos valores de referência (e.g. dióxido de carbono, fungos, bactérias), que poderão facilitar a transmissão de doenças e contribuir para o agravamento de problemas respiratório (ENVIRH, Viegas, et al., 2012). Será também pertinente referir que outros estudos realizados neste âmbito tem vindo a mostrar que o brincar ao ar livre poderá contribuir para promoção da saúde numa perspetiva global, diminuindo os níveis de stress, ansiedade e depressão que assumem cada vez mais evidência entre crianças e adultos. O bem-estar experienciado na Natureza poderá ter influência noutros contextos, promovendo comportamentos de maior resiliência face aos desafios quotidianos.

Perante um quadro sociocultural de mudança, importa garantir que as crianças têm oportunidade para crescer de forma saudável e equilibrada, usufruindo de experiências significativas no espaço exterior. Ao ar livre, com os amigos, vivendo desafios e aventuras, é possível adquirir e mobilizar competências dificilmente replicadas no interior, abrangendo dimensões cognitivas, sociais, motoras e emocionais.

Neste âmbito, importa que os espaços exteriores sejam valorizados como contextos pedagógicos, não servindo apenas para que as crianças possam “esticar as pernas e gastar energias”.

O Projeto Fora de Portas surge a partir da perceção desta realidade por parte da equipa pedagógica da Casa dos Sonhos, que desde 2011 tem vindo a desenvolver diferentes iniciativas que procuram introduzir uma mudança nas práticas educativas desta instituição (e.g. viagem de estudo à Dinamarca; participação em formações neste âmbito). Reconhecendo o grande potencial dos espaços ao ar livre do Centro Social Infantil de Aguada de Baixo, este projeto tem como principal objetivo proporcionar experiências de qualidade nos espaços exteriores, garantindo o bem-estar, a implicação e o desenvolvimento harmonioso de cada criança. Através de um permanente melhoramento dos espaços e da criação de práticas de observação das crianças e registo das experiências no exterior, pretende-se responder de forma eficaz aos interesses dos mais novos, potenciando assim diferentes aprendizagens e competências. O contacto com a Natureza e o brincar livre é também valorizado em função dos ganhos que proporciona ao nível da aquisição de hábitos de vida saudáveis e de atitudes de respeito e valorização pelo ambiente.

Assim, sempre que possível, bebés e crianças da Casa dos Sonhos brincam no espaço exterior, onde enfrentam problemas, superam desafios, colocam questões, imaginam histórias, cooperam para atingir objetivos e crescem enquanto cidadãos ativos e interessados pelo meio que os rodeia.

Referências bibliográficas:

Rito, A., Breda, J. (2010): Prevalence of childhood overweight and obesity in Portugal – the national nutrition surveillance system. Obesity Reviews. 11(1),428.

Viegas, J., Cano, M., Nogueira, S., Papoila, A. L., Proença, C., Aelenei, D., Neuparth, N. (2012). Riscos Ambiente e Qualidade do Ar Interior – Estudo da Qualidade do ar interior em creches e infantários (projeto ENVIRH). Ciclo de Encontros Científicos a Ciência na Prevenção e Mitigação dos Riscos em Portugal, 8 de Novembro de 2012, Lisboa, Portugal.

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